Filamentos

Pesquisadores da UFPA criaram a máquina que transforma garrafa PET em filamento — e ela já imprime em comunidade do Rio

Filamento de garrafa PET: pesquisadores da UFPA criaram equipamento que corta a garrafa em tiras e a transforma, a 215 °C, em filamento para impressão 3D.

Estande do projeto da UFPA na SBPC com impressora 3D e o equipamento que transforma garrafa PET em filamento sobre a mesa
Foto: Divulgação / Movimento Ciência e Vozes da Amazônia (UFPA)

A garrafa PET que iria para o lixo pode virar filamento de impressão 3D — e a máquina que faz essa conversão foi criada na Universidade Federal do Pará. O equipamento, desenvolvido pela equipe do professor Wellington Fonseca, corta a garrafa usada em tiras, aquece o plástico a cerca de 215 °C e o transforma em filamento pronto para alimentar uma impressora comum. A tecnologia paraense rodou o país nesta semana depois de ganhar o noticiário nacional — e o detalhe mais bonito da história é onde ela já está funcionando: numa associação de mulheres e meninas na comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro.

Como a garrafa PET vira filamento

O processo que o equipamento automatiza é conceitualmente simples — e quem é do nicho vai reconhecer a lógica na hora. A garrafa é cortada em tiras contínuas; as tiras passam por um bloco aquecido a aproximadamente 215 °C, temperatura em que o PET amolece; e saem do outro lado no formato que interessa: um fio contínuo, com diâmetro de filamento, pronto para a impressora. Dali podem sair utensílios, peças e materiais educativos — no estande da equipe, chaveiros impressos com o logotipo da SBPC faziam a demonstração na prática.

A graça está em fechar o ciclo com o que existe de sobra em qualquer cidade brasileira. PET de garrafa é abundante, limpo de origem conhecida e gratuito — o problema sempre foi o trabalho de convertê-lo em material utilizável. A comunidade maker mundial faz isso há anos com montagens caseiras, célebres e trabalhosas; um equipamento desenvolvido em universidade pública, pensado para operar fora do laboratório, ataca exatamente a parte penosa do processo.

Da Amazônia para a comunidade da Mangueira

A tecnologia foi apresentada ao público na 78ª Reunião Anual da SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Niterói (RJ) — vitrine máxima da ciência nacional. E não ficou na vitrine: em parceria com a professora Angélica Di Maio, da Universidade Federal Fluminense, e dentro do projeto Promares, voltado à proteção de ecossistemas marinhos e costeiros, o equipamento foi implantado na Associação de Mulheres e Meninas da comunidade da Mangueira, no Rio, com foco em geração de renda para mulheres e jovens em situação de vulnerabilidade.

O desenho é de economia circular completa: o resíduo que polui vira insumo, o insumo vira produto impresso, e o produto vira renda — com a formação técnica junto. “Apresentar essa tecnologia na SBPC é uma oportunidade de demonstrar a força da ciência produzida na Amazônia por amazônidas”, resumiu a equipe na divulgação da universidade.

Por que filamento reciclado de PET importa para o nicho

Porque o custo do insumo é a conta que nunca fecha para escola, laboratório comunitário e maker de baixo orçamento — e o PET de garrafa é o único plástico que chega de graça, em qualquer lugar do país, já na porta. Iniciativas como a da UFPA não competem com o filamento comercial em acabamento ou consistência de diâmetro; competem em outra tabela, a do acesso: onde um rolo importado não chega ou não cabe no orçamento, uma máquina dessas ao lado de uma impressora de entrada resolve peça funcional, material didático e produto simples de venda.

Vale a régua honesta de sempre: PET reciclado de garrafa exige secagem cuidadosa, imprime mais quente que PLA e o resultado depende da garrafa de origem — não é material para peça crítica. Mas para o que se propõe — transformar lixo em ferramenta e em renda, com tecnologia nacional —, é exatamente o tipo de aplicação que faz a impressão 3D valer a pena fora da bolha.

Nota de apuração: os fatos desta matéria — funcionamento do equipamento, temperatura de processo, nomes dos pesquisadores, apresentação na 78ª Reunião Anual da SBPC e implantação na comunidade da Mangueira via projeto Promares — são da divulgação oficial da UFPA (04/08/2026, linkada nas fontes), que repercutiu na imprensa nacional nesta semana, incluindo o G1, em 28/08. A foto é da divulgação oficial da universidade, creditada ao Movimento Ciência e Vozes da Amazônia. O custo do equipamento e planos de comercialização não foram divulgados; a caracterização das limitações do PET reciclado é conhecimento técnico corrente da comunidade, não medição desta redação.

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