Notícias

O stent impresso em 3D que se dissolve sozinho: pesquisa quer poupar uma endoscopia a quem teve fístula depois da bariátrica

Stent impresso em 3D com treliça interna drena até o dobro e se degrada sozinho, poupando a endoscopia de retirada na fístula gástrica pós-bariátrica.

O stent BRIDGE impresso em 3D visto de cima: as duas pontas enroladas em espiral e o trecho central vazado em malha, sobre fundo cinza
Foto: Divulgação / NYU Abu Dhabi

Um stent que se dissolve sozinho depois de fazer o trabalho, e que drena até o dobro do que drena um stent comum. É o que um grupo da NYU Abu Dhabi descreve num estudo publicado em 26 de agosto — e o alvo dele é uma complicação que o Brasil conhece bem: a fístula gástrica que aparece depois da cirurgia bariátrica. O dispositivo se chama BRIDGE, e a diferença dele para o que existe hoje está na geometria, não no material.

O que muda: treliça em vez de tubo

Um stent convencional é, essencialmente, um tubo liso. O BRIDGE troca esse interior por uma arquitetura de treliça do tipo TPMS — uma superfície mínima triplamente periódica, aquela geometria matemática que só existe na prática porque manufatura aditiva consegue fabricá-la. É exatamente o tipo de forma que nenhum processo convencional produz.

Os dois ganhos medidos em bancada, segundo o artigo:

Resultado
Vazão de drenagematé 2 vezes a de um stent convencional
Resistência a dobratolerou raio de curva 7,1 vezes menor que um stent comercial sem amassar

E há um terceiro ganho, que não é de desempenho e sim de rotina clínica: o material é biodegradável. A proposta é que o stent cumpra a função e desapareça — eliminando o segundo procedimento que hoje existe só para retirá-lo.

Sobre os números, uma precisão que vale a pena: o release da universidade arredonda para “mais que dobra” e “mais de sete vezes”. O artigo é mais contido — fala em até o dobro, e o 7,1 é comparação com um stent comercial específico, em laboratório, não com a categoria inteira. Ficamos com a redação do artigo.

O que este estudo ainda não é

Esta é a parte que qualquer matéria de saúde precisa deixar no começo, e não no rodapé: os testes descritos são de bancada. Não há paciente, e o release não descreve teste em animal. O próprio texto da universidade diz que faltam estudos pré-clínicos e clínicos antes de qualquer uso em gente.

Vale também dizer quem pagou: o registro do artigo aponta a própria NYU Abu Dhabi como financiadora da pesquisa. Quem banca o estudo e quem o divulga são a mesma parte — o que não invalida nada, mas o leitor tem direito de saber.

E não é um salto do zero. O BRIDGE é a segunda geração de um dispositivo do mesmo laboratório: em junho de 2026 o grupo havia apresentado o PETAL, um stent gástrico inspirado em flor. O que mudou agora foi redesenhar a arquitetura interna e trocar por material biodegradável, justamente para eliminar a cirurgia de retirada.

Um alerta para quem for procurar a fonte: circula um preprint no bioRxiv, de maio, com o mesmo título e os mesmos autores. Não é um segundo estudo confirmando o primeiro — é a versão anterior do mesmo trabalho.

Por que isso interessa ao Brasil

O Brasil é um dos países que mais realizam cirurgia bariátrica no mundo, com volume relevante também na rede pública. E a fístula gástrica — o vazamento na linha de grampeamento — é justamente a complicação mais temida do procedimento: prolonga internação, exige antibiótico, drenagem e, muitas vezes, uma sequência de endoscopias.

É aí que a proposta pesa. Hoje, tratar uma fístula com stent significa duas endoscopias no mínimo: uma para colocar, outra para tirar. Um stent que se degrada sozinho corta a segunda — menos sedação, menos risco, menos fila, menos custo por paciente.

Nada disso é para amanhã. Um dispositivo implantável precisaria passar por estudo clínico e por registro na Anvisa antes de chegar a um hospital brasileiro, e não há prazo nem preço anunciados. Mas o caminho aponta para onde a impressão 3D na medicina realmente se diferencia: não em imprimir mais barato o que já existe, e sim em fabricar geometrias que antes não eram possíveis.

Quem assina

O trabalho tem Parima Phowarasoontorn como primeira autora e Khalil Ramadi como autor sênior, e foi publicado na revista Device. Um detalhe que reforça a seriedade da equipe: entre os autores estão cirurgiões da Cleveland Clinic Abu Dhabi — Juan S. Barajas-Gamboa, John Rodriguez e Matthew Kroh. Não é um grupo só de engenharia desenhando dispositivo sem quem opera.

Nota de apuração: esta matéria foi apurada no comunicado oficial da NYU Abu Dhabi de 26/08/2026 e no artigo publicado na revista Device (DOI 10.1016/j.device.2026.101278, disponível on-line na mesma data). Onde o release e o artigo divergem na intensidade dos números, adotamos a redação do artigo, mais conservadora — “até o dobro” de drenagem e raio de curva 7,1 vezes menor contra um stent comercial, em bancada. A informação de que a pesquisa foi financiada pela própria NYU Abu Dhabi vem do registro público do artigo. O release não nomeia o polímero biodegradável específico nem a tecnologia de impressão utilizada, e por isso nenhum dos dois é citado aqui. Não há teste em humanos, e o release não descreve teste em animal. Os dados brasileiros sobre bariátrica e fístula gástrica são contextualização desta redação a partir de conhecimento consolidado da área, sem número específico atribuído a fonte — quando publicarmos números de volume de cirurgias no Brasil, será em matéria própria e com a fonte nomeada. Esta redação não tem relação com nenhuma das instituições citadas.

Publicidade
Anuncie no FilamentoNewsSeu produto na frente de quem imprime em 3D no Brasil.Fale com a gente →