Impressora 3D de gelo sem freezer: físicos de Amsterdã usam água que esfria sozinha abaixo de zero para imprimir pilares inclinados sem suporte
Impressão 3D de gelo: físicos de Amsterdã fazem a água esfriar abaixo de zero por evaporação a vácuo e imprimem pilares a 14 graus sem suporte. Estudo na PNAS.

Físicos da Universidade de Amsterdã publicaram nesta quinta (3/9), na PNAS, um método que imprime estruturas de gelo em 3D sem freezer nem mesa refrigerada: um jato de água de 16 micrômetros, dentro de uma câmara a 2 milibares, esfria sozinho abaixo de zero por evaporação e congela no instante em que toca a camada anterior — o que permite imprimir pilares inclinados a até 14 graus da horizontal sem nenhum suporte. É a continuação da árvore de Natal de gelo que o mesmo grupo mostrou em dezembro, agora com a física do processo e a prova de que dá para imprimir em ângulo.
Para quem imprime plástico, é a mesma pergunta de sempre — como fazer uma balança sem suporte? — respondida com outro material e outro truque: em vez de resfriar a peça, o grupo faz a tinta chegar já fria.
Como a água imprime gelo sem freezer
O segredo é o resfriamento evaporativo, o mesmo princípio do suor. Dentro de uma câmara a 2 mbar (quase vácuo), a água evapora depressa, e cada molécula que sai leva calor consigo; o que sobra no jato esfria até ficar abaixo de 0 °C ainda líquido — água super-resfriada. Ao encostar no gelo já depositado, ela congela na hora. O bico tem 16 µm, mais fino que um fio de cabelo, e cada camada tem 200 µm.
O estudo novo, de Menno Demmenie, Stefan Kooij e Daniel Bonn, do Instituto de Física da UvA, mostra que a mesma lógica sustenta pilares impressos em ângulo: como o congelamento é instantâneo no ponto de contato, a estrutura se segura sozinha camada a camada, sem suporte embaixo — até uma inclinação de 14 graus em relação à superfície, segundo o artigo. A árvore de dezembro, de 8 cm, levou 26 minutos; o grupo diz que o método é cerca de 100 vezes mais rápido que a impressão de gelo por gotas sobre superfície resfriada.
Para que serve gelo impresso
Não é para enfeite — a árvore foi o chamariz. As aplicações apontadas pelos autores são moldes sacrificiais: imprime-se o canal em gelo, envolve-se em outro material, derrete-se o gelo e sobra o vazio. É o caminho para canais microfluídicos e andaimes de cultura de tecidos com geometrias que os métodos atuais não fazem. Eles citam ainda um cenário mais distante: construção em Marte, onde há água, atmosfera rarefeita e frio — condições parecidas com as da câmara.
O que a matéria não pode afirmar
O artigo é de física de processo, não de produto: não existe “impressora de gelo” à venda, e o sistema é um aparato de laboratório com câmara de vácuo. Também não lemos o texto integral do artigo da PNAS, apenas o comunicado e os números divulgados; o detalhamento de velocidade e resolução em ângulo está no paper (DOI 10.1073/pnas.2608173123).
Nota de apuração: diâmetro do jato, pressão da câmara, altura de camada, o ângulo de 14 graus, a comparação de velocidade e as aplicações vêm da cobertura do Tech Xplore (3/9/2026) sobre o artigo da PNAS e do comunicado da Universidade de Amsterdã de 17/12/2025 (EurekAlert), com o pré-print no arXiv; traduzidos por nós. A analogia com suporte de impressão em plástico é desta redação. A foto é da árvore de gelo de dezembro de 2025, cedida pelos autores à imprensa — não é imagem do estudo novo.
Fontes
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